
Mesquita de Mértola
Mértola, Beja, Portugal
Último quartel do século VI AH / XII AD
Almóada
"Igreja que foi mesquita". A legenda que identifica a igreja matriz de Mértola no desenho feito por Duarte d'Armasnos inícios do século XVI não deixa margem para dúvidas. O principal templo da vila fôra, em tempos, a aljama de Martulah.
Nesse registo é ainda perfeitamente legível a estrutura da mesquita, construída na segunda metade do século VI AH / XII AD e consagrada ao culto cristão após a "Reconquista". Templo com cinco naves, cada uma com um telhado de duas águas, dele restam ainda os muros exteriores e quatro pequenas portas (três abertas ao antigo pátio e uma outra ao exterior) em que o arco em ferradura, levemente peraltado, é emuldurado por um alfiz.
A manutenção da estrutura base do edifício, e mesmo tendo em conta a reconstrução da cobertura em meados de Quinhentos, conferem a esta igreja-mesquita um irresistível exotismo. Mantiveram-se os arcos em ferradura das portas que abriam ao sahn (o pátio do local de culto) e o mihrab, desentaipado há algumas décadas. Ladeava-o um estreito compartimento para o minbar. De planta poligonal, este elemento orientador da prece muçulmana, ostenta ainda uma decoração em estuque, hoje sem policromia, com três arcos cegos polilobados rematados por uma cimalha moldurada por dois cordões do infinito, tema que se repete no topo do conjunto. Surpreendentemente, esta peça única no nosso País escapou às investidas purificadoras da "Reconquista" e da Contra-Reforma, tendo chegado até nós em razoável estado de conservação.
No Museu Nacional de Arqueologia (Lisboa) conserva-se parte de uma cornija em granito com duas linhas de inscrição. Segundo Nykl, deve ser a mesma de que fala Estácio da Veiga nas Memórias das Antiguidades de Mértola. Amador de los Ríos leu na linha inferior a primeira parte do verso 28 da sura XXXVI do Alcorão: "Não fizemos descer sobre o seu povo depois dele [exército]". O conteúdo do texto e o facto de ter sido lavrado numa cornija leva a supôr que possa ter pertencido à mesquita de Mértola.
A decadência económica da vila levou a que a estrutura do edifício fosse reaproveitada a seguir à Reconquista, mudando-se apenas as suas funções (de mesquita passou a igreja). O próprio minbar subsistia ainda nos inícios do século XVI, sendo nessa altura utilizado como altar. As obras realizadas um pouco de 1530 levaram ao desparecimento de todos esses vestígios, assim como à concretização de modificações estruturais, que não foram suficientes para apagar os traços da antiga mesquita aljama.
A manutenção da estrutura base do edifício (último quartel do século VI AH / XII AD), e mesmo tendo em conta a reconstrução da cobertura em meados do séc. XVI, conferem a esta igreja-mesquita um irresistível exotismo. Mantiveram-se os arcos em ferradura das portas que abriam ao sahn (o pátio do local de culto) e o mihrab, desentaipado há algumas décadas.
O edifício original tinha cinco naves, cada uma com um telhado de duas águas e quatro pequenas portas (três abertas ao pátio e uma outra ao exterior) em que o arco em ferradura, levemente peraltado, é emuldurado por um alfiz.
A datação da mesquita de Mértola foi estabelecida a partir de comparações feitas com a mesquita de Tinmel (em Marrocos), que lhe terá servido de modelo. Por outro lado, a decoração vegetalista dos estuques apresenta paralelos com a de outros monumentos da mesma época (mesquitas de Tinmel e de Almeria, nomeadamente), o que permite datar com razoável rigor a época de construção deste local de culto.
Amador de los Ríos, R., Memoria acerca de algunas inscripciones arábigas de España y Portugal, Madrid, 1883.
Ewert, Ch., “La mezquita de Mértola”, sep. de Cuadernos de la Alhambra, n° 9, Granada, 1973.
Macias, S. et al., Mértola – Mesquita / Igreja matriz, Mértola, 2002.
Nykl, A. R., “Arabic inscriptions in Portugal”, Ars Islamica, XI-XII, 1946, pp. 167-183.
Veiga, S. E., Memória das antiguidades de Mértola, Lisboa, 1880.
Santiago Macias "Mesquita de Mértola" in "Discover Islamic Art", Museum With No Frontiers, 2026. 2026.
https://islamicart.museumwnf.org/database_item.php?id=monument;ISL;pt;Mon01;10;pt
Autoria da ficha: Santiago Macias
Número interno MWNF: PT M
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