Identificação do Monumento:

Muralhas de Évora

Localização:

Évora, Portugal

Data de construção do monumento:

301-302 AH / 913-914 AD

Período / Dinastia:

Omíada

Descrição:

A integração da cidade romana de Ebora na realidade política do al-Andalus não significou que tivesse havido grandes alterações na sua componente social e, sobretudo, em componentes do seu tecido urbano - alguns dos quais visíveis ainda hoje. Mas a Ebora que chega aos inícios do século II AH / VIII AD passou por transformações ainda difíceis de avaliar, nas fases do baixo Império e “visigótica”. Entre as construções então levadas a cabo encontra-se a cerca conhecida como “muralha romana”, que se sobrepõe a casas romanas e onde predomina um opus quadratum irregular.

Nas crónicas de época islâmica não há informações que indiciem um crescimento tal que levasse à substituição da muralha herdada da época anterior. Ora, quando no ano de 301 / 913 a cidade de Évora (Yâbura) é atacada por tropas comandadas pelo futuro Ordonho II de Leão é essa muralha que encontram pela frente. A descrição detalhada de Ibn Hayyan refere que os leoneses encontraram uma muralha baixa, sem parapeito nem merlões e que aparentava ter remendos recentes; no seu exterior havia vários montes de lixo, que servirão aos atacantes para acederem ao topo.

A derrota e o massacre sofridos pela população islamizada de Yâbura, que ficou desabitada, levou a que a família rebelde que controlava a região a partir de Badajoz, os Banu Jilliqi, decidissem tomar providências: numa primeira fase, derrubaram «até à base» as muralhas para que os berberes das redondezas não se estabelecessem no seu interior e, depois de decidirem entregarem-na a uma família muladí tradicionalmente aliada, iniciam a sua recuperação no ano seguinte: a muralha foi, então, reconstruída e os edifícios da cidade restaurados. Os Banu Jilliqi de Badajoz forneceram homens e material para essa reconstrução e embora não esteja concluída uma análise dos paramentos desta muralha, tudo leva a crer que a parte refeita tenha seguido, em grande parte do seu perímetro, a muralha tardo-romana. No estado actual dos conhecimentos, os indícios existentes apontam para uma recolocação - com um aparelho não muito diferente do referido opus e com semelhanças com o que em outros pontos do al-Andalus é datado como dos períodos emiral-califal. Mantém-se a utilização de torres quadrangulares, aproveitando embasamentos anteriores e deve ter-se definido um fosso em seu redor, que tem sido atestado em intervenções arqueológicas e na própria micro-toponímia, que ainda conserva, para a envolvente exterior desta muralha a designação - já existente nos textos medievais - de Alcárcova.

Os acontecimentos de 301 / 913 tiveram reflexos em toda a região; o cuidado na recuperação das muralhas de Évora é acompanhado por um programa de obras de reforço das fortificações da região do Médio Guadiana e pela construção de outras de raiz. Yâbura inicia, a partir de então, uma fase de ascensão e este perímetro amuralhado (com cerca de 1100 metros, envolvendo uma área de 8 hectares) conservar-se-á durante todo o período islâmico e será utilizado até ao século VIII / XIV.

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A muralha islâmica de Évora tem uma extensão aproximada de 1100 metros e rodeia uma área de 8 hectares. A construção data de inícios do século IV H./X d.C., quando toda a cerca foi re-edificada, na sequência do assalto à cidade pelo futuro Ordonho II. A obra de reconstrução fez-se aproveitando aproveitando embasamentos anteriores e mantendo a utilização de torres quadrangulares. Deve ter-se então definido um fosso em seu redor, que se conservou na própria micro-toponímia, sob a forma de Alcárcova.
A parte mais significativa desta muralha pode ser vista junto ao Palácio dos Condes de Basto.

Como foi estabelecida a datação:

As escavações na rua de Burgos revelaram que aí as muralhas assentam e cortam casas de época romana. Na zona da Alcácova realizaram-se escavações que revelaram fosso entulhado com materiais posteriores ao século VIII / XIV. A crónica de Ibn Hayyan descreve com muito detalhe: 1 - o estado em que a muralha se encontrava em 301 / 913; 2 - o arrasamento feito pouco tempo depois para evitar uma ocupação indesejada; 3 - a reedificação efectuada em 302 / 914 com construtores vindos de Badajoz.

Bibliografia seleccionada:

Hayyan, Ibn, Crónica del califa Abdarrahman III An-Nasir entre los años 912 y 942 (al-Muqtabis V), tradução, notas e índices por M. J. Viguera y F. Corriente, Saragoça, 1981, pp. 81-84 e 88-91.

Lima, Miguel Pedroso, O Recinto Amuralhado de évora, Ed. Estar, Lisboa, 1996.

Picard, Ch., Le Portugal Musulman (VIIIe-XIIIe siècle): l'occident d'al-Andalus sous domination islamique, Paris, 2000, pp. 197-199.

Sidarus, A. Y., "Um texto árabe do século X relativo à nova fundação de évora e aos movimentos Muladi e Berbere no Ocidente Andaluz", Sep. boletim A Cidade de évora, 71-76, 1988-1993, évora, 1994, pp. 7-37.

Citation:

Fernando Branco Correia "Muralhas de Évora" in "Discover Islamic Art", Museum With No Frontiers, 2022. 2022. https://islamicart.museumwnf.org/database_item.php?id=monument;ISL;pt;Mon01;8;pt

Autoria da ficha: Fernando Branco Correia


Número interno MWNF: PT J